• Transporte inter-hospitalar de crianças criticamente doentes

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    • Abstract: Aluna do Curso de Pós Graduação em Pediatria e Saúde da Criança da Faculdade de Medicina ... Mestre em Pediatria. Pediatra Intensivista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. ...

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Transporte inter-hospitalar de crianças ... Traiber C, Andreolio C, Luchese S
ARTIGO DE REVISÃO
Transporte inter-hospitalar de
crianças criticamente doentes
Interhospital transport of critically
ill children
CRISTIANE TRAIBER1
CINARA ANDREOLIO2
STELAMARIS LUCHESE2
RESUMO ABSTRACT
Objetivos: Realizar uma revisão atualizada sobre Aims: To conduct an actual revision of interhospital
o transporte inter-hospitalar de crianças criticamente transport of critically ill children.
doentes. Source of data: A bibliographical research was carried
Fonte de dados: Foi realizada uma pesquisa bi- out using the MEDLINE and LILACS database. Only the
bliográfica utilizando os banco de dados MEDLINE e more relevant articles were quoted, as well as textbooks.
LILACS. Foram citados apenas os artigos mais rele- Summary of the findings: A critically ill child, who
vantes, além de livros textos. needs to be transferred to a paediatric intensive care
Síntese dos dados: A criança criticamente doen- unit, is benefited by a specialize team. It is recommended
te, que necessita de transferência para unidade de tra- a stabilization period previous to the transportation,
tamento terciário, se beneficia do atendimento por with special attention to airway and circulation. The
equipe especializada. É recomendado um período de circumstances of the transport need to be adequate as to
estabilização previamente ao transporte, com especial provide security and safeness of patient as well as the
atenção a via aérea e circulação. O modo de transpor- medical team. It also requires equipments and medicines
te deve ser adequado para acomodar o paciente e a needed in a treatment.
equipe de forma segura, contendo materiais, equipa- Conclusions: The interhospital transport of children
mentos e medicamentos necessários para um bom critically ill can be done in a safe and rapid way by a well
atendimento. trained medical team, with reduction of morbidity and
Conclusões: O transporte inter-hospitalar de mortality.
crianças graves pode ser realizado de forma rápida e KEY WORDS: CRITICAL ILLNESS; LIFE SUPPORT CARE;
segura por equipe treinada, com redução de morbi- TRANSPORTATION OF PATIENTS; CHILD.
mortalidade.
DESCRITORES: ESTADO TEMINAL; CUIDADOS PA-
RA PROLONGAR A VIDA; TRANSPORTE DE PACIENTES;
CRIANÇA.
1 Aluna do Curso de Pós Graduação em Pediatria e Saúde da Criança da Faculdade de Medicina da PUCRS. Pediatra intensivista do
Hospital Fátima Caxias do Sul. CV Lattes.
2 Mestre em Pediatria. Pediatra Intensivista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Scientia Medica, Porto Alegre: PUCRS, v. 16, n. 3, jul./set. 2006 119
Transporte inter-hospitalar de crianças ... Traiber C, Andreolio C, Luchese S
INTRODUÇÃO Hospitais precisam ter protocolos com equi-
pes de transporte acessíveis, telefones de locais
O transporte de pacientes criticamente doen- de referência, incluindo protocolo administrati-
tes envolve um grau de risco para o paciente e vo. Se for necessário pagamento da hospitali-
algumas vezes para os acompanhantes. A deci- zação ou do transporte já deve existir acordo
são de transportar deve ser baseada na perspec- prévio para não atrasar a transferência.7
tiva de benefícios potenciais que superem os ris-
cos do transporte, como cuidados adicionais tan- MODO DE TRANSPORTE
to tecnológicos quanto de especialistas.1-4
O transporte deve ser realizado por veículo
O presente estudo tem por objetivo realizar
selecionado especificamente para o transporte de
uma revisão atualizada sobre o transporte inter-
crianças criticamente doentes: ambulância UTI
hospitalar de crianças criticamente doentes.
móvel, helicóptero ou avião. A escolha vai de-
pender da gravidade do caso, urgência na trans-
COMUNICAÇÃO E COORDENAÇÃO ferência, necessidade de intervenções de su-
PRÉ-TRANSPORTE porte durante o percurso, distância/tempo,
A solicitação de transferência deve ser feita disponibilidade transporte/pessoal, condições
antes do transporte, de médico para médico, com climáticas de acesso e de trânsito, geografia,
a descrição das condições do paciente, do trata- segurança e custos.1-3
mento e exames realizados. Isso permite o pre- A criança com alteração do sensório, compro-
paro adequado do local de destino possibilitan- metimento respiratório ou circulatório necessita
do, por exemplo, equipe cirúrgica aguardando a de supervisão médica constante o que impossi-
chegada do paciente.5,6 bilita o transporte em condições improvisadas,
O médico receptor pode sugerir condutas ou como o carro dos pais, apesar desse não ter custo
procedimentos se for necessário ou se for solici- maior e estar prontamente disponível, o mesmo
tado. Informações sobre o estado clínico do paci- serve para ambulâncias locais, normalmente sem
ente e hora estimada da chegada devem ser trans- equipamentos ou medicações adequadas.
mitidas ao médico que receberá a criança, antes Vantagens e desvantagens de cada modo de
da saída da ambulância.7 transporte:
O médico responsável pelo transporte deve 1. Ambulâncias:
ser notificado das condições do paciente, bem
– vantagens: a) disponíveis em nosso meio;
como do nome do médico que receberá o pacien-
b) menor custo; c) o paciente é transferido
te e assim como do nome do hospital e setor de
apenas duas vezes: do hospital para a am-
referência. Documentação da indicação para o
bulância e da ambulância para o hospital;
transporte e estado do paciente durante o trans-
d) se necessário permite parar para proce-
porte deve ser entregue ao hospital de referência
dimentos inclusive em outro hospital inter-
juntamente com o sumário do caso, a cópia dos
mediário; e) local adequado para atendi-
registros e de todos os exames laboratoriais e ra-
mento dentro do veículo;
diografias. A preparação destes registros não
deve atrasar o transporte, podendo ser enviados – desvantagens: a) em longas distâncias (mais
por fax posteriormente ou, em último caso ver- de 200 km ou duas horas) aumenta os ris-
balmente. O telefone do hospital de origem bem cos pelo desgaste da equipe e recursos;
como o número do laboratório deve ficar dispo- b) limitada pelas condições de tráfego e cli-
nível para exames pendentes ou necessidade de máticas, congestionamentos; c) limitada em
contato.4,5,8 locais muito distantes e inacessíveis.
É recomendável obter consentimento escrito
2. Helicóptero:
dos pais ou responsável legal pelo paciente. Esse
deve ser informado da gravidade do caso, dos – vantagens: a) meio rápido; b) alcança áreas
motivos, riscos e benefícios da transferência do inacessíveis ou difíceis;
paciente. Mesmo quando um familiar acompa- – desvantagens: a) distância máxima de 300 km;
nhar o transporte, o endereço do hospital para o b) espaço limitado para atendimento do
qual a criança vai ser transferida deve estar es- paciente; c) se a área de pouso for longe do
crito de forma clara para sua fácil localização e hospital de referência é necessário trans-
identificação.5,6 ferir o paciente para uma ambulância;
120 Scientia Medica, Porto Alegre: PUCRS, v. 16, n. 3, jul./set. 2006
Transporte inter-hospitalar de crianças ... Traiber C, Andreolio C, Luchese S
d) barulho e vibrações interferem com a No Brasil, embora alguns hospitais dispo-
monitorização e atendimento; e) não há nham de ambulâncias bem equipadas e pessoal
pressurização na cabine; f) custo alto de treinado, crianças graves ainda são transporta-
manutenção; g) muito limitado às condi- das de forma inadequada. Muitas vezes o trans-
ções climáticas; h) não pode parar para pro- porte é realizado apenas com a presença de um
cedimentos. motorista e um auxiliar de enfermagem. Além
disso, raros são os estudos sobre o tema publica-
3. Avião:
dos em nosso país. Estudo de Lotufo e cols.9 de
– vantagens: a) meio rápido para percorrer 1988, demonstrou que 4% das crianças eram
longas distâncias; b) permite o tráfego mes- transportadas em ambulâncias sem oxigênio,
mo com mau tempo; c) cabine pressuri- 15% sem médico e 40% sem material de reani-
zada; d) cabine de tamanho apropriado mação.
para monitorização e atendimento; Kanter e Tompkins10 descreveram a ocorrên-
– desvantagens: a) necessárias quatro trans- cia de eventos adversos em 10% dos transportes
ferências do paciente: hospital para ambu- de crianças gravemente doentes realizados por
lância, ambulância para avião e vice-versa; não especialistas nos EUA. Nesse estudo, as
b) custo de manutenção muito alto; c) ne- crianças que evoluíram ao óbito tiveram maior
cessitam de pista de pouso e decolagem; probabilidade de complicações relacionadas ao
d) não pode parar para procedimentos.1-3,8 transporte do que as que sobreviveram. Barry e
É importante lembrar que a equipe de trans- Ralston,11 estudando o transporte de crianças no
porte não deve pressionar o motorista da ambu- Reino Unido por equipes não especializadas, des-
lância, este deve trafegar na velocidade limitada creveram 75% de intercorrências, sendo 23%
por lei para a rodovia ou estrada.1 Alta velocida- eventos críticos (potencialmente fatais: bradi-
de raramente beneficia o paciente, aumenta as cardia, apnéia, hipotensão). Em 6% pacientes não
chances de acidentes, e coloca em risco a vida da foram avaliados os sinais vitais durante o trans-
equipe e do paciente. As sirenes e as luzes de- porte e em 82% não foram documentados os
vem ser usadas apenas para permitir a passagem sinais vitais. Em 16% dos transportes não havia
em locais de trânsito lento ou tumultuado. Ha- médico. Na chegada, 11% dos pacientes necessi-
vendo necessidade, é preferível parar a ambu- taram de intubação traqueal de urgência e 9%
lância, estabilizar o paciente, e após prosseguir estavam hipotensos.
numa velocidade segura.5 Sharples12 observou ocorrência de eventos
Quando for escolhido o transporte aéreo nun- adversos em 1/3 dos transportes de crianças por
ca deve ser esquecido o efeito da altitude sobre o equipe não especializada, sendo o mais comum
paciente. Com baixa pressurização pode ser ne- queda de saturação de oxigênio que ocorreu em
cessário aumentar a concentração de oxigênio 17 casos de um total de 143 transferências; em 19
inspirado. Pneumotórax e outras coleções de ar dessas não havia monitorização. No período da
podem expandir e devem ser pré-tratadas.2,5 chegada a UTIP até 4 horas após, 21 pacientes
Idealmente uma equipe de transporte deve foram intubados; 34 necessitaram de expansão
estar disponível 24 horas por dia e estar apta a se com soro fisiológico e 62 necessitaram de aque-
mobilizar imediatamente. O motorista ou piloto cimento.
deve ter treinamento específico em transporte de Em estudo na África do Sul, foi observado
pacientes. intercorrências clínicas em 27% dos transportes
Independente do tipo de transporte escolhi- e eventos relacionados a equipamento em 36%
do todos os ocupantes do veículo precisam estar desses. Paramédicos foram os responsáveis pelo
protegidos com cintos de segurança.5 transporte de 82% das crianças, sendo apenas
10% transportadas por equipe especializada em
EQUIPE QUE ACOMPANHA O PACIENTE terapia intensiva. Quando comparados, o grupo
No mínimo duas pessoas devem acompanhar transportado por equipe especializada tinha
o paciente, além do motorista e do familiar, usual- maior probabilidade de ser intubado antes da
mente um médico e uma enfermeira. Esses pro- transferência (80% vs 56%), menor incidência de
fissionais devem ser capazes de prover suporte eventos relacionados à falha de equipamento
avançado de vida em pediatria no hospital e (0 vs 40%), sem diferença significativa em rela-
manter este atendimento durante o transporte.1,6,8 ção à ocorrência de eventos clínicos.13
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Estudo na Finlândia mostrou que o transpor- mido o que pode ser realizado em veículos ade-
te de pacientes graves realizado por equipe es- quadamente equipados.5
pecializada pode ser feito com segurança mes- É comum ocorrer obstrução das vias aéreas
mo a longas distâncias.14 Britto e colaboradores,15 ou da cânula endotraqueal por isso é importante
avaliando o transporte de crianças gravemente manter o material de aspiração acessível.
doentes em Londres por equipe especializada, Fonte de oxigênio deve ter reserva adicional
observaram uma diminuição importante de de no mínimo 30 minutos (idealmente duas ve-
morbimortalidade relacionada à falha de equipa- zes o tempo previsto de transporte), pois para-
mento no grupo especializado, sem diferença em das inesperadas podem acontecer.2,6
relação a evento clínicos. O mesmo foi descrito
em outros dois estudos na mesma região16,17 e TABELA 1 – Equipamento para transporte.
num estudo norte americano.18
Mesmo no caso do transporte ser realizado • Bolsas infláveis com máscaras de tamanho adequado
(múltiplos tamanhos)
por pediatra, nem sempre este está apto ao aten-
• Máscaras, capacetes, tendas, cateteres nasais – para fornecer
dimento de urgências. Um estudo na Holanda oxigênio.
avaliou, através de questionário, a participação • Guedel de todos os tamanhos
de médicos pediatras no transporte de pacientes • Langigoscópio e lâminas de diversos tamanhos e curvaturas
graves para UTIP. A maioria desses atendiam em • Cânulas endotraqueais de diversos tamanhos com e sem balonete
emergências e 45% deles achavam que não ti- • Pinça de Magil
nham conhecimentos suficientes sobre o equipa- • Pilhas e lâmpadas extra para laringoscópio
mento usado no transporte. Muitos estavam in- • Material para cricotireoidotomia
satisfeitos com a necessidade de transportar uma • Reservatório de oxigênio, tanque / compressor de ar
criança grave, especialmente nos locais onde o • Misturador ar/oxigênio
• Nebulizador
transporte era esporádico. Nessa situação foi des-
• Sistema de umidificação e aquecimento dos gases
crita elevada insegurança principalmente pela • Sistema de vácuo
inexperiência.19 • Escalpes, jelcos de vários calibres
O médico deve obrigatoriamente acompanhar • Agulhas e seringas de diversos tamanhos, torneiras (três vias)
os pacientes instáveis e que podem necessitar de • Fita adesiva, compressas, ataduras, esparadrapos e micropore
intervenções agudas. O médico que encaminha • Algodão, gazes, cotonetes
é responsável pelo paciente até que ele seja assu- • Luvas estéreis
mido pelo médico do transporte, na falta deste, • Luvas, aventais, máscaras
o médico assistente continua sendo responsável • Cateter venoso profundo, cateter umbilical
pelo paciente até que ele seja recebido no hospi- • Agulhas de punção intra-óssea
tal a que foi referido. A omissão do médico que • Material para dissecção de vasos (bandeja estéril)
• Material para sutura
encaminha o paciente pode ser considerada
• Material para drenagem torácica
abandono, sujeito a implicações éticas e legais. • Equipos de soro
• Bomba de infusão contínua, bomba de seringa
EQUIPAMENTO • Sondas gástricas
Pacientes intubados, em ventilação mecâni- • Sondas de aspiração
ca, podem ser transportados com ventiladores • Sondas vesicais
• Imobilizador cervical, talas acolchoadas, dispositivos de contenção
portáteis mantendo os mesmos parâmetros res-
• Maca, incubadora, cobertores
piratórios. Esses ventiladores devem apresentar • Carregador de bateria
alarmes para indicar desconexão ou pressão de • Foco, lanterna
via aérea excessiva. Preferir ventiladores que • Aparelho de ventilação mecânica
operem com umidificador e aquecimento do ar. • Monitores:
Hoje estão disponíveis aparelhos pequenos, – Oxímetro de pulso
leves e que podem ser usados em crianças de – Monitor de ECG com fios de derivação
– Monitor de pressão arterial não invasivo (manguito de todos
todas as idades.5,8 O uso de ventilador durante o os tamanhos)
transporte libera um dos membros da equipe da – Monitor automatizado de pressão
função de manter a respiração, estando dispo- • Desfibrilador (corrente direta com faixa de 20-400) eletrodos
nível para outros procedimentos e avaliações externos pediátricos e adultos
necessárias durante o percurso. • Termômetros, estetoscópio
Em alguns casos há necessidade do transpor- • Tubo para coleta de exames
te ser realizado com óxido nítrico ou gás compri- • Sistema de análise da glicemia
122 Scientia Medica, Porto Alegre: PUCRS, v. 16, n. 3, jul./set. 2006
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Soluções intravenosas e medicações de infu- ficar visível todo tempo. A ausculta também pode
são contínua devem, preferencialmente, ser re- ser difícil, sendo importante a monitorização con-
guladas por bombas de infusão contínua com tínua da freqüência cardíaca (pode ser obtido
funcionamento a bateria. As fontes de energia/ com oximetro de pulso). Procurar manter uma
baterias usadas devem obrigatoriamente ter de pequena área do paciente visível para avaliação
duas a três horas de funcionamento, além de se- rápida da cor e perfusão periférica.5
rem usadas baterias bivolt (110V/220V).2,3
Em crianças e, especialmente neonatos a pre- MEDICAMENTOS
ocupação com a temperatura é uma constante, a
Medicamentos para reanimação, ressucitação
ambulância necessita de equipamento apropria-
volumétrica, sedativos, analgésicos e anticonvul-
do para manter a temperatura como incubado-
sivantes devem obrigatoriamente estar a dispo-
ras, cobertores, colchões térmicos e ar condicio-
sição na ambulância.
nado.5,6,8
As doses de medicações possivelmente ne-
Dispor sempre de um telefone móvel/ce-
cessárias deveriam ser calculadas previamente.
lular no veículo de transporte, para eventuais
O uso de tabelas com doses e diluições de acor-
contratempos. Mudanças importantes no estado
do com o peso/idade do paciente podem facili-
clínico do paciente deveriam ser informadas ao
tar o atendimento de urgências.
local de referência antes da chegada do mesmo,
Algumas medicações eventualmente podem
permitindo a preparação de atendimento ade-
ser incluídas, conforme a necessidade do pacien-
quado.7
te, como surfactante, antibióticos (ampicilina,
Intercorrências que acontecerem no transpor-
cefotaxime, ceftriaxone, gentamicina, penicilina),
te, bem como medicações administradas e os
prostraglandina E1, insulina, carvão ativado e
sinais vitais do paciente devem ser registrados.
albumina por exemplo.3,6
Esse documento deve ser entregue a equipe que
assumir o paciente no hospital de referência. TABELA 2 – Medicamentos para transporte.
Mapas locais, telefones úteis (por exemplo:
hospital de origem, hospital de referência, fami- Acetaminofen Gluconato de cálcio
liar) e endereços devem estar disponíveis. Adenosina Hidralazina
Adrenalina Heparina
Água destilada Lidocaína
Monitorização durante o transporte Amiodarona Manitol
Atropina Midazolan
Quando possível, mantêm-se durante o trans-
Bicarbonato de sódio Metilprednisolona
porte as mesmas medicações, padrões ventila- Cloreto de potássio Morfina
tórios e monitorização que a criança esta receben- Cloreto de sódio Naloxone
do anteriormente. Clorpromazina Noradrenalina
Monitorização mínima necessária: eletrocar- Diazepan Nitroglicerina
diograma e oximetria de pulso contínuas com Digoxina Nitroprussiato de sódio
Dobutamina Pancurônio/Atracúrio/Vecurônio
documentação periódica, medida intermitente e Dopamina Prometazina
documentação de pressão arterial e de freqüên- Fenobarbital Soro fisiológico
cia respiratória. Alguns pacientes podem neces- Fenoterol/Salbutamol Soro glicosado 5%, 10%, 50%
sitar de monitorização avançada: capnografia, Fenitoína Succinilcolina
medida contínua de pressão arterial, pressão Furosemide Tiopental
Glucagon Verapamil
intracraniana, etc. Ainda pode-se utilizar equi-
pamentos portáteis para medida de gasome-
tria e dosagem de eletrólitos, apesar de ter alto
custo, esse tipo de monitorização é útil em pa- PREPARAÇÃO DO PACIENTE PARA
cientes instáveis.5,6 O TRANSPORTE
A temperatura deve ser avaliada periodica- Uma vez decidido pelo transporte, esse deve
mente,especialmente no recém nascido, tanto ser realizado o mais rápido possível, mas é inad-
hiper como hipotermia podem ser prejudiciais e missível simplesmente “pegar e largar” o pacien-
causar descompensação aguda. te, um breve período de tempo deve ser gasto na
Barulho e movimento são problemas poten- sua estabilização.8 É preferível gastar alguns
ciais em todos os tipos de transporte. Alarmes po- minutos em assegurar via aérea e/ou acesso
dem não ser escutados, por isso o monitor deve vascular antes do transporte do que ter o trans-
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torno de fazê-lo de urgência em condições ina- Certificar-se de que as condições da criança
dequadas. Estudo de 1993, com crianças em ven- estão adequadas com exames rápidos é impor-
tilação mecânica, observou uma média de 74 mi- tante para evitar problemas durante o transpor-
nutos para estabilizar o paciente para o transpor- te. Mas nenhum exame que não seja essencial
te e, em torno de 150 minutos, naqueles que deve atrasar o mesmo.
necessitavam de drogas vasoativas.20 As condições do paciente, intercorrências,
O paciente não deve ser transportado antes medicações ou procedimento realizados duran-
de se estabilizar a via aérea. Se a intubação é pro- te o transporte devem ser registrados e uma có-
vável, deve ser realizada imediatamente, pois pia deve ser entregue ao hospital que recebe o
sempre é mais difícil e perigosa durante o per- paciente. Uma sugestão para evitar esquecimen-
curso. A hipóxia é muito comum e é uma das tos é contar com protocolos de atendimentos.
principais causas de morbidade durante o trans-
porte.12,15 Se a intubação for necessária, a posição TABELA 3 – Checklist.
do tubo traqueal deve ser confirmada por aus-
• Via aérea
culta, observação da expansão torácica e através
– A via aérea está segura?
de RX de tórax. Realizar fixação adequada da câ- – É necessária intubação?
nula antes do transporte. Evitar a perda de calor – Tubo endotraqueal está bem posicionado? Com fixação
e o ressecamento das vias áreas, utilizando gases adequada?
aquecidos e umidificados.8 – Material para aspiração de via aérea?
– A quantidade de oxigênio é suficiente para o transporte?
Todo paciente grave deve ter acesso venoso
assegurado antes da saída do hospital de origem. • Circulação
– Perfusão adequada?
Se acesso periférico não é possível, estabelecer – Pressão sanguínea adequada?
acesso central. Avaliar se a fixação do acesso está
• Temperatura
correta. As bombas de infusão devem permane- – Hipo ou hipertermia?
cer na posição vertical, tendo o cuidado de veri- • Monitorização
ficar a velocidade de infusão ou gotejo: evitar a – Os equipamentos estão funcionando?
interrupção do fluxo ou mesmo a administração – Os limites de alarme estão ajustados?
inadvertida de medicação em bolo.5 – Baterias estão carregadas? Existem baterias reserva?
Observar a cor e a temperatura, avaliar pul- • Drogas/fluidos
sos e perfusão periférica, assim como pressão – Sedação/analgaseia adequadas?
arterial e freqüência cardíaca. Sendo necessário – Infusão com volume suficiente para o percurso?
– Todos os medicamentos necessários estão presente
inicia-se reposição volumétrica. Alguns pacien-
• Procedimento
tes podem necessitar de colóide, concentrado de
– Acesso intravenoso estabelecido?
hemácias ou drogas vasoativas para adequada – Sonda nasogástrica? (obstrução intestinal/íleo/paciente
estabilização.8 ventilado)
A criança gravemente doente precisa de – Cateter uretral ? (inconsciente/sedação)
sedação e analgesia, a movimentação e o baru- – Dreno de tórax?
lho durante o transporte podem, por si só, ser • Comunicação
causa de dor e ansiedade.5 Adequada analgesia – Os pais foram informados?
– Cópias de registros, exames e radiografias foram
e sedação podem ser conseguidas com doses in- providenciados?
termitentes de opióides e benzodiazepínicos ou – Hospital de referência foi informado do horário previsto de
mesmo infusão contínua desses medicamentos. saída/tempo de transporte?
Alguns pacientes se beneficiam de bloqueio
neuromuscular. Uma adequada sedação pode
prevenir extubação acidental, perda de acesso CONCLUSÕES
venoso ou drenos durante o transporte.3,5,8
As vítimas de trauma precisam de imobiliza- O transporte inter-hospitalar de crianças gra-
ção cervical. Também devem ser estabilizadas vemente doentes deve ser realizado por equipe
quaisquer fraturas.7 treinada no atendimento de urgências pediá-
Procurar prever possíveis intercorrências de tricas. Muitas intercorrências podem ser evitas
acordo com cada caso. Se necessário passar son- com a preparação adequada do transporte. Com
da orogástrica e/ou sonda vesical. Qualquer in- profissionais aptos e equipamento adequado
tervenção que seja necessária deve ser realizada a criança grave pode ser transportada de forma
antes do inicio do transporte.2,8 eficiente e segura.
124 Scientia Medica, Porto Alegre: PUCRS, v. 16, n. 3, jul./set. 2006
Transporte inter-hospitalar de crianças ... Traiber C, Andreolio C, Luchese S
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