• Líderes religiosos

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    • Abstract: Líderes religiososdas comunidades Católica, Evangélica e Muçulmana da Guiné-BissauMENSAGEM AO POVO DA GUINÉ-BISSAU“Si nô súmia bentu, nô na otcha turbada;Si nô súmia bardadi, nô na otcha paz”!

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Líderes religiosos
das comunidades Católica, Evangélica e Muçulmana da Guiné-Bissau
MENSAGEM AO POVO DA GUINÉ-BISSAU
“Si nô súmia bentu, nô na otcha turbada;
Si nô súmia bardadi, nô na otcha paz”!
(“Se semearmos ventos, colheremos tempestades; se semearmos a
verdade, colheremos a paz”!)
Introdução
Nós, os líderes religiosos das comunidades católica, evangélica
e muçulmana da Guiné-Bissau, fomos despertados, com surpresa e horror,
pelas notícias referentes aos assassinatos do Chefe de Estado Maior
das Forças Armadas (Batista Tagme na Waie) e do Presidente da
República (João Bernardo Vieira), nos passados dias 1 e 2 do mês de
Março de 2009, com poucas horas de intervalo entre si.
Com tais acções repugnantes, mais uma vez optámos pelo caminho
errado na solução dos problemas de carácter político e militar:
preferimos a solução rápida mas enganadora e mortal da violência
armada à solução dialogada e não violenta dos problemas, que pode ser
mais vagarosa mas que é seguramente mais racional e perdurável. Para
nós, o modo violento de resolver os problemas (tal como tem sido feito
até aqui, em vários momentos após a Independência) é verdadeiramente
deplorável, visto que só serve para gerar novos problemas, para
espezinhar sem escrúpulos a dignidade e a sacralidade da vida humana,
para violar de modo clamoroso as regras do Estado de Direito, e para
denegrir cada vez mais a imagem do nosso país. Se continuarmos pelo
caminho desta espiral de violência, o nosso país corre o risco sério
de não poder participar de cabeça erguida no concerto das nações e de
nunca mais chegar ao tão almejado desenvolvimento por que anseiam as
nossas populações.
Perante tudo isto, não podemos deixar de nos interrogar
seriamente: - Mas quando é que os Guineenses irão parar de enlutar a
nossa querida pátria? Será que estamos condenados a fazer da violência
e do homicídio a nossa segunda natureza? Será que ainda não chegou o
tempo para aprendermos a voltar atrás neste caminho errado e sem
futuro promissor?
É certo que os problemas fazem parte de todas as sociedades
humanas, resultantes quase sempre de choques de interesses materiais,
de má gestão da liberdade e do bem comum, de orgulhos e de
incoerências individuais, etc. Mas os problemas, quando surgem, devem
ser resolvidos quanto antes e de maneira conveniente porque, não sendo
resolvidos ou sendo mal resolvidos, acabam sempre por constituir uma
ameaça séria para a vida das sociedades. E qual será essa maneira
certa e conveniente?
Para nós líderes religiosos de três comunidades de crentes da
Guiné Bissau que vos enviamos esta Mensagem, a maneira certa e
conveniente de resolver os nossos problemas político-sociais e
militares é a do caminho não violento, do caminho do diálogo confiante
e persistente, do caminho do respeito pelas instituições e pela
legalidade, caminho que os nossos anciãos na fé nos apontaram
e que até agora ainda não soubemos escutar nem imitar: o Bispo D.
Settímio Ferrazzetta, o Aladje Malam Serco Indjai e o Pastor Ernesto Lima.
Esse é mesmo o único caminho que nos poderá levar a uma sociedade realmente
desenvolvida e democrática na Guiné-Bissau.
E agora, após mais esta tragédia nacional, o que será possível e
desejável que façamos para redefinir de algum modo o nosso país,
orientando-o definitivamente para o caminho da solução racional e
dialogada dos conflitos com que nos debatemos e continuaremos a
debater no futuro?
RENOVAR URGENTEMENTE A MENTE E O CORAÇÃO DOS GUINEENSES
Para nós, torna-se absolutamente necessário e urgente que todos os
guineenses façam uma viragem decisiva na sua maneira de viver em
sociedade. Torna-se imprescindível que todos os guineenses ousem olhar
para dentro de si mesmos e para a situação geral do país e façam um
profundo e sincero acto de conversão interior, de mudança de
mentalidade e de comportamento, ajudados pela sua fé em Deus, com
lucidez intelectual, com espírito de sacrifício e de amor patriótico,
com confiança em si mesmos individualmente e como Nação. Não mais
poderemos continuar a querer persistir numa mentalidade mágica e de
violência desumanizante, que leva aos resultados desastrosos que já
conhecemos; temos de apontar para horizontes mais positivos e
humanizantes.
Para que isso possa acontecer, teremos de concentrar nossa
atenção e esforços em ultrapassar algumas barreiras ou obstáculos que
nos têm impedido de aceder a uma maneira de vida mais desenvolvida,
mais democrática e com maiores perspectivas de futuro. É para a
ultrapassagem dessas barreiras ou obstáculos que agora queremos chamar
a vossa atenção.
1. Passar da hostilidade ao acolhimento fraterno
Em nossas relações sociais, temos de abandonar o sentimento da
hostilidade (rejeição) uns para com os outros: nos outros não podemos
ver sobretudo o que é diferente, negativo ou perigoso para nós ou para
a nossa família; pelo contrário, haveremos de olhar para os limites e
falhas dos outros como um convite silencioso para que os ajudemos em
espírito de colaboração e corresponsabilidade; haveremos de olhar para
os outros sobretudo no aspecto positivo, procurando descobrir as
afinidades que a eles nos ligam (a mesma condição humana, o mesmo
continente, o mesmo país etc.) e tomando consciência de que as
diferenças podem ser afinal uma fonte de enriquecimento para todos, já
que ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar ao seu semelhante.
2. Não querer resolver a violência com outra violência semelhante ou ainda
pior
Temos de deixar de acreditar na violência física (força ameaçadora e
desumanizante) como solução para os nossos problemas, já que uma
violência chama sempre outra violência (se possível ainda maior) e a
cadeia de violência nunca mais acabará. Há que cortar o mal pela raiz,
desejando uma convivência humana que seja diferente da convivência dos
animais, onde não seja a lei “do mais forte” a imperar, mas sim as
leis respeitadoras da dignidade e corresponsabilidade de cada ser
humano.
3. Passar da vingança individual ao recurso à justiça:
A passagem da vingança (solução vindicativa e frequentemente
desproporcional) ao recurso à justiça (solução racional e
institucional) significa: ter em conta que quem se vinga imita a
lógica do ofensor e abre uma espiral de vingança quase interminável;
reconhecer que a vingança constitui um insulto às instituições
vocacionadas para a resolução humana e legalizada dos conflitos
sociais, e que acabar com ela constitui um “salto qualitativo” no
desenvolvimento humano: aprender a responsabilizar sempre quem nos
ofendeu, embora sabendo guardar respeito pela sua pessoa individual.
4. Substituir o comportamento irresponsável pela sujeição às
exigências da Ética:
Temos de levar a ética (moral) a sério: cada ser humano não pode
fazer apenas e sempre aquilo que lhe apraz; tem de se sujeitar às regras
e exigências da moral social (que há-de ser apoiada não em conveniências
de pessoas ou de pequenos grupos privilegiados, mas sim nos valores
fundamentais resultantes da dignidade de cada pessoa humana, criada
e amada por Deus). A seriedade no respeito pela ética (moral) é condição
necessária para garantir a coesão social e o respeito recíproco dos
cidadãos. Em todos os lugares, em todas as circunstâncias e em todas as
culturas somos chamados a cumprir o primeiro princípio da ética: “ o bem
deve ser feito e o mal deve ser evitado”!
Não é possível continuar com a pretensão injusta e soberba do “bu
sibi ami i quim”, ou então a pretensão interesseira e incitante à
corrupção “abó son qui na cumpu Guiné”? É justo que queiramos ser
cidadãos de direitos, mas não nos esqueçamos – de modo algum – que
também temos de ser cidadãos de deveres.
5. Levar a sério a nossa fé em Deus
Somos crentes em Deus, nas nossas diferentes comunidades
religiosas (religião tradicional africana, muçulmana, cristã e
outras). Para nós, a criatura humana não é “senhora” total de sua vida
e comportamento moral; depende de Deus que a criou, que a ama e que a
julgará. A dependência de Deus não diminui a dignidade da pessoa
humana, antes a defende melhor e lhe dá uma dimensão não apenas para
este mundo mas também para a vida eterna. Nossa fé de crentes em Deus
contribuirá seguramente para melhorar as nossas relações sociais:
ajudar-nos-á a ver os outros como Deus gostaria que fossem vistos, com
amor e sem preconceitos; encorajar-nos-á a utilizar nossa vida para
defender e promover a vida dos outros e o respeito pela natureza que
nos rodeia, e que é a nossa “casa comum”. Se acreditamos em Deus,
tiremos daí todas as consequências lógicas e todas as energias
interiores para podermos participar corajosamente no desenvolvimento
integral de nossas populações e de nossa terra comum. Se acreditamos a
sério em Deus, tenhamos a coragem de reconhecer que, individual ou
colectivamente, errámos variadas vezes na maneira de resolver os
nossos problemas mais graves, desviando-nos da vontade de Deus e
ofendendo o nosso próximo. Agora, a nossa fé comum nos pede que
saibamos arrepender-nos de verdade e que façamos alguma acção concreta
que demonstre o desejo sincero de procedermos de maneira diferente
no futuro.
Conclusão
Caros concidadãos
O gravíssimo momento social que estamos a atravessar não é de
muitas palavras, ou de oportunísticas e enganadoras promessas. É de
exame de consciência profundo e de necessidade urgente de mudança de
comportamentos na nossa vida social e comunitária. Não podemos
continuar com uma mentalidade e uma actuação prática baseadas na magia
ou na violência, recorrendo à vingança individual, aos golpes militares
forjados ou verdadeiros, à corrupção no uso dos bens públicos ou na
participação em negócios escondidos, imorais e ilegais.
Temos de passar para um modo de vida mais positivo e desenvolvido:
uma vida social em que em que o acolhimento fraterno e recíproco, o
não–recurso à violência física mas sim à justiça legalmente exercida,
o respeito pelas exigências comuns da ética e a ajuda inestimável da nossa
fé em Deus, nos ajudem a crescer cada vez mais na felicidade de sermos
cidadãos da mesma pátria, continuadores daqueles que nos ofereceram
gratuitamente o benefício da liberdade e da independência, para que as
defendêssemos e concretizássemos. É indiscutível que “se continuarmos
a semear ódios, recolheremos apenas mais tempestades; mas se, pelo
contrário, passarmos a semear a verdade, ela nos libertará e haveremos
finalmente de colher a Paz”!
Não é vergonha nem fraqueza voltar atrás num caminho que descobrimos
ser errado ou perigoso. Vergonha é não termos coragem de o fazer. A
este respeito, e como fruto concreto desta Mensagem, queremos hoje
propor-vos o seguinte:
• Que façamos da próxima semana(5-12 deste mês de Abril) uma semana
de oração, e que também durante ela, cada comunidade escolha um Dia
particular de oração e de Penitência em favor da Paz e da verdadeira
reconciliação entre todos os Guineenses. Procuremos rezar mais
intensamente, jejuar conscientemente, e reflectir a sério sobre aquilo
em que temos urgentemente de mudar.
• Que, nessas várias celebrações que irão ser feitas em cada uma de
nossas comunidades religiosas, os crentes descubram alguns gestos
concretos que sejam o sinal visível de arrependimento, de pedido de
perdão e de reconciliação.
• Que a partir desse momento, nós os crentes nos empenhemos juntos no
trabalho árduo e longo, em favor duma reconciliação nacional, em que
estejam envolvidas todas as camadas sociais. Os últimos acontecimentos
dramáticos provam à evidência que a sociedade guineense ainda não está
reconciliada consigo mesma.
Que Deus todo-poderoso e cheio de Misericórdia ajude a transformar as
nossas mentes e os nossos corações, volte para nós o seu rosto e
abençoe a Guiné-Bissau!
Pela Igreja Católica
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Dom José Câmnate na Bissign – Bispo de Bissau
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D. Pedro Carlos Zilli – Bispo de Bafatá
Pela Igreja Evangélica
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Pastor José Paulo Domingos Semedo
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Pastor Paulo Mendes
Pela comunidade Muçulmana
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Aladje Tcherno Embalo – Conselho Superior dos Assuntos Islâmicos
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Aladje Abdulai Baio – Conselho Nacional Islâmico
Bissau, 02 de Abril de 2009
Publicação no site www.didinho.org por cortesia do Secretário-geral do PIME -
Roma - Itália


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